Mariana, A História de uma Infância

Eu com 3 anos, em Moçamedes

Mariana era uma criança alegre, desinquieta, e um tanto difícil de aturar, pela sua constante vida em movimento. Sensivelmente aos quatro anos os pais mudaram-se para uma casa, entre a Igreja e o Hospital, ladeada por duas outras perfeitamente iguais, com uma vista paradisíaca sobre o Mar.

É claro que Mariana não tinha ainda idade para perceber que a imensidão do mar e céu unidos no horizonte era a natureza na sua perfeição inatingível.

Já tinha ido à metrópole, dois anos antes, ver os avós e outros familiares. Essa viagem valeu-lhe um tremendo susto, hoje, ignora se ainda guarda uma lembrança muito vaga, pouco provável por ser muito pequena, ou se apenas a recorda porque os pais lhe contaram essa pequena aventura. Foi a dormir para bordo, daqueles célebres paquetes que uniam as colónias às suas origens europeias. Ao outro dia quando acordou, espreitou pela vigia e instalou-se o pânico: o nosso quintal está cheio de água terá dito aos pais em soluços que lhe explicaram no seu carinho sempre presente a origem de tanta água e lhe transmitiram novamente a sua energia normal.

Regressada a Moçâmedes, onde usava com alguma frequência folhos e laços, como no continente, especialmente em dias festivos e fins de semana nada a impedia de sentir-se uma pequena folha de árvore num vendaval de liberdade. Voltou para a terra onde tinha nascido, uma cidadezinha que na época não se lembra de ser feia ou bonita mas recorda-se de poder correr, subir às árvores e onde tinha sempre o aconchego do colo da sua Julieta, onde se aninhava quando tinha sono, queria mimos ou os pais andavam a sua procura para uma merecida admoestação. O colo da Julieta era mágico, nem os pais se aproximavam.

Ninguém conseguiu que deixasse de chuchar no dedo, com grande desespero da mãe que previa uma acentuada curvatura no palato, quando crescesse, excepto a sua Julieta que lhe deve ter contado uma das suas imensas e fantásticas estórias, mais credíveis que todas as outras explicações.
A casa tinha uns quaro ou cinco largos degraus que ligavam a varanda à rua, ladeados por uma simples mas bonita balaustrada em alvenaria.

Nesse dia, sabe-se lá porquê a criança teve a primeira percepção de que havia muitos mistérios no universo, não certamente com esta clareza mas de uma maneira já reflectida.

Sentou-se num degrau olhou para o mar e perguntou-se a si própria onde terminaria. Porquê tanto mar? Sabia que havia mais, pela viagem que fizera, mas não sabia se terminava um e começava outro, não sabia como estavam “ligados”, nem sabia a sua função. Olhou o horizonte e pensa que desde aí a cor símbolo de toda a beleza, vastidão e pureza é o azul.

Nesta altura teria uns 4 ou 5 anos. Dois anos mais tarde nasceu-lhe uma irmã que endeusou desde o primeiro momento em que a teve no colo, com todas as precauções dos pais a ampararem a bebé. Lembra-se de ter ficado muito ofendida de não terem a suficiente confiança na sua capacidade de pegar sozinha na irmã. Na primeira oportunidade sem a presença de ninguém, tirou-a do berço e a partir daí foi a boneca que acarinhou e defendeu contra tudo e todos. Era a sua menina.

Mariana nunca foi ciumenta, o que ela queria, nessa altura obtia sem birras nem gritos, usando o seu mais encantador e ingénuo sorriso. Nem os pais lhe resistiam e muito menos os amigos, mas com os anos aprendeu que a sua sedução era bem pequena comparada com a avalanche de detritos que acabaram por magoá-la seriamente.

E chegou a altura em que lhe vestiram uma bata, deram-lhe uma pasta, alguns conselhos e foi contente e divertida para a Escola, onde iniciaria uma aprendizagem livresca de décadas. Simultaneamente a sua herança genética, o meio ambiente e o livre arbítrio encarregaram-se de esculpir o ser humano em que se tornou.

Mariana foi uma criança muito feliz, na cidade mágica das pessoas felizes. Não sabia distinguir que o brilho da ficção despedaçava com frequência a fragilidade da vida. E enquanto corria em direcção ao futuro, outros sem futuro corriam em direcção a ela. Anos mais tarde encontraram-se-iam.